Vamos falar sobre Redenção em o Milagre na Cela 7

Atenção, se você vai ler este post, ele contém spoilers da trama do filme. Se você ainda assistiu, CONSIDERE-SE AVISADO!

Se você se sentiu um pouco desidratado após terminar de assistir o filme, faz parte de um gigantesco clube. É mesmo difícil não se emocionar com a história de Memo e Ova. As razões que nos levam a tal emoção podem ser consideradas legítimas: enfim alguém injustiçado se salva, não é ótimo? 

A deficiência intelectual de Memo, que acredita ter a mesma idade de sua filha Ova, o fato de que ele é um pai amoroso, um pastor de ovelhas simples e amável, um neto obediente para sua avó, o tornam um personagem adorável desde a primeira cena. Tudo nos leva a gostar dele de cara, e percebê-lo como alguém de fato puro.

A cena em que Memo não consegue comprar a mochila de Heidi para sua filha Ova, e sem compreender a situação, tenta puxá-la das costas da filha do Comandante do exército, é ao mesmo tempo comovente e assustadora. Pode-se antever na fala e no olhar cheio de ódio e desprezo do comandante que algo terrível vai se passar entre eles. 

Quando Memo é acusado pela morte acidental da garotinha, já é possível prever que o sofrimento que está por vir será grande. A partir daí, o filme é um verdadeiro vale de lágrimas que nos deixa sentados na ponta da cadeira cheios de expectativa pelo tal milagre do título. 

O filme não decepciona e o milagre vem! Memo é salvo da morte por alguém improvável que deseja morrer por ele. O inocente é liberto da condenação injusta e o nosso coração se aquece pela vida que é salva! Começamos a pensar na ideia maravilhosa que é alguém morrer em lugar de outro que não merecia aquela morte e nos alegramos muito com o sacrifício feito. Mas qual é de fato a ideia de redenção presente em O Milagre na cela 7?

Se analisarmos de pertinho a prisão e seus personagens (lembre-se: o título do filme mostra a relevância da prisão para a trama), veremos que aquele universo tem regras próprias. Cada preso da cela 7 tem seu papel a cumprir e sua função no funcionamento daquela "sociedade". 

Askorozlu, o "Capitão", é responsável pela manutenção da ordem e imposição da justiça interna. Ele ordena o brutal ataque a Memo quando acredita que este seja um assassino de crianças. Mas à medida que a inocência de Memo se comprova, o capitão passa a buscar a melhoria da situação do prisioneiro acusado injustamente, procura fazer aquilo que considera correto, mesmo à custa de risco para si e para sua família. Mas há algo de mais profundo nos esforços de Askorozlu, sua própria busca por redenção. Assassino reincidente, aprendemos durante o filme que ele havia negligenciado o cuidado de sua família ao voltar à prisão por não controlar seu temperamento violento e seguir matando. Quando ele providencia meios de reunir Memo à sua filha, ele se dá conta de sua conduta maligna e busca redimir os laços familiares, restaurando seu relacionamento com os seus e decidindo mudar os rumos de sua vida daí em diante. Ele "se salva" por sua boa obra e passa a crer que isso é suficiente para torná-lo um novo homem. 

Yorbay Aydin, o "Religioso Devoto", é responsável pelo controle dos ânimos ao tentar estabelecer uma rede de conselhos baseados na religião para levar os detentos a reflexão sobre suas almas imortais e sobre o arrependimento. Ele se abstém de alimentos considerados proibidos e carrega um terço de contas nas mãos, sempre citando o Alcorão em situações que tencionam promover uma mudança de mentalidade. Ele está em busca de redenção pelo seu próprio passado, e como assassino de sua própria família, cada pensamento que formula sobre a justiça divina e sobre a vida após a morte, é uma tentativa de mitigar sua culpa e se convencer de que há esperança para ele, e também para os outros. É relevante notar que ele é o que diz o Yusuf, de quem já já falaremos, que qualquer um que se disponha a dar a vida por outro é digno de salvação para ele. 

O soldado desertor e fugitivo também está em busca de uma redenção através da confissão que pode exonerar Memo. Mas ele só o faz quando se vê derrotado e impossibilitado de fugir de seu castigo. Diante da punição iminente, só resta a ele tentar mitigar a sua culpa, e quem sabe seu castigo, ajudando alguém cuja vida não teve valor para ele enquanto se considerava seguro em sua fuga. 

Mas talvez o personagem mais marcante para todo o sistema redentivo apresentado no filme seja Yusuf, o "Mártir". Sua vida sem sentido é passada olhando para um buraco na parede. Ninguém é capaz de compreender a relevância daquela imagem que aponta para o tamanho da sua culpa e da sua dor, a não ser o olhar singelo de Ova, que imediatamente reconhece o desenho de uma árvore, que foi o local onde ele enterrou sua filha, morta por suas próprias mãos. A imponência e a beleza natural dá árvore nos mostram o quanto ele já não conseguia ver vida em absolutamente nada, somente a lembrança da morte e da decadência do corpo que jazia debaixo dela. Admiramos a atitude de Yusuf, mas nos esquecemos de que ele se entrega para o laço da forca por já estar morto, vivendo à sombra daquela árvore que em sua visão não tem cor. Ele não morre por Memo na tentativa de se redimir, embora creia que esteja fazendo algo justo por um injustiçado, ele morrer para fugir de sua dor e desespero. 

Mas mesmo que a sua magnânima ação para com Memo e suas  intenções tivessem desejos redentivos para si próprio, ele ainda estaria muito distante de alcançar um patamar de justiça perfeita e definitiva. E é aqui que eu convido a uma reflexão sobre a nossa cosmovisão. Todos os que assistem ao filme se emocionam quando o inocente escapa da condenação à morte não merecida. Porém, no mundo em que vivemos, muito poucos se sentem sequer tocados pela morte de um justo perfeito, puro, santo e bom por todos os condenados pecadores, presos pelo pecado em sua morte espiritual. 

Não há um sistema redentivo que possa ser apresentado de fato em favor do homem desde o Éden, quando ele escolheu declarar independência e separação do Deus criador, puro, perfeito e bom. Mas há um redentor, o único Deus vivo e verdadeiro, que não conheceu o crime do pecado, mas pagou o preço total dele em nosso lugar (Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus - 2 Coríntios 5.21). 

O que deveria chamar nossa atenção não é o fato de que um injusto queira morrer para corrigir uma injustiça, porque a própria Bíblia diz que embora difícil, pode ser que pelo bom e justo alguém se anime a morrer (Romanos 5.7). Mas o que deveria fazer nosso coração explodir de gratidão e amor, o que deveria escapar a nossa compreensão e nos colocar de joelhos em admiração e temor, é que "Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Romanos 5.8). O Senhor Jesus deixou aquilo que era seu por direito, e deu as costas à liberdade, entrando na cela que era nossa e tomando aquela surra que nos pertencia, sendo desprezado, humilhado, posto em dúvida, separado momentaneamente daquele a quem mais amava e vivia para honrar, suportando tudo isso sem nunca ter errado, por amor dos que estão presos no sistema implacável da morte e do pecado, e foi pendurado no madeiro para que todas as portas da prisão se abrissem e nos fosse garantida entrada pelas portas principais da vida, para cair direto nos braços do Pai, pavimentando com a sua justiça perfeita, conquistada naquela cruz, o nosso caminho de volta à Deus. 

Nem as boas obras, nem a religião, nem a auto infligida penitência guiada pela consciência pesada e nem o martírio, seja guiado por angústia própria ou promoção da reparação de um erro, nada disso pode e nem vai preencher o vazio existencial e identitário que nos assolou por causa do pecado. Mas "graças a Deus pelo seu dom inefável" (2 Coríntios 9.15), louvado seja o seu nome pela graça que de graça eu recebi e pela qual eu jamais poderia pagar!

Que a  emoção que nos assalta quando a bondade se manifesta nas ações humanas, puro fruto dos respingos da graça que perfura o véu de morte do mundo, que essa mesma emoção, em muito multiplicada e somada a convicção e a ação transformadora que só o Espírito Santo pode nos conceder, que ela nos tome de assalto e nos leve aos pés da cruz, em devoção completa e total consagração da nossa existência ao Redentor, Autor e Consumador da nossa fé! 


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