As Crônicas da Pandemia A-Z_Amélia

Amélia pensou ter visto uma sombra passar na janela e se assustou. Olhou por um longo instante naquela direção como se esperasse que o movimento se repetisse. Tentou voltar a atenção para o livro em seu colo. As letras estavam ali, as palavras podiam ser lidas, mas não faziam sentido. Concentrar-se na leitura ou em qualquer outra coisa estava difícil ultimamente. O silêncio era ensurdecedor. As horas se arrastavam dolorosamente. 

 

Mas o que de fato estava em tumulto não era externo. Tudo por dentro estava tremendamente fora de lugar. O problema é que Amélia tinha essa consciência lá no fundo, há muito tempo. Porém, de uma hora para outra ninguém mais podia sair de casa, ninguém podia trabalhar, todos tiveram que se isolar. E de repente ela foi obrigada a encarar o fato de que usava toda a agitação da sua rotina para simplesmente não pensar, nem se permitir sentir, ou questionar. 

 

Antes da pandemia todos os dias estavam agendados, se não por escrito, ao menos na sua cabeça. Levantar, banho, café, devocional, trocar de roupa, deslocamento, trabalho, deslocamento um dia para a corrida, um dia para as aulas, um dia para o salão e até um dia determinado para o encontro com os amigos. Os sábados tinham a aparência de leveza somente porque a hora de levantar era diferente. Tarefas domésticas, compras para a semana, preparação das refeições da semana, roupas para lavar. Até as visitas, passeios e programas com amigos eram agendados, isso quando não havia evento na igreja. Os domingos era quase cronometrados, escola dominical, almoço com alguma família de amigos da igreja ou em um restaurante. Descanso da tarde. Culto à noite. O fim de semana termina, a nova semana começa. Aperte o play, deixe passar, repita. Até os momentos de "lazer" pareciam parte de um script. O livro que seria lido agora, quanto tempo de leitura diária, quando. O filme que seria visto, a série que seria acompanhada, quantos episódios por dia, quando. 

 

Até mesmo as conversas e interações com amigos e irmãos em Cristo pareciam um borrão em sua mente agora que tudo que ela tinha era tempo para pensar. Como é meu relacionamento com as outras pessoas? - ela se perguntava. Não saberia dizer. Quão próximos são aqueles com quem convivo? - uma lacuna. Tudo o que estava acontecendo agora só a fazia enxergar uma enorme espiral de dúvida em todas as direções. Nos primeiros dias as conversas por telefone ou vídeo chamada eram mais constantes. As pessoas estavam se adaptando a nova realidade e precisavam trocar palavras e impressões sobre como viver tudo isso. Mas a medida que os dias se tornaram semanas, os contatos se tornaram mais escassos e ela mesma deixou de tomar inciativa. 

 

A sua rotina devocional permaneceu intacta, sua disciplina nesse sentido sempre fora espartana. Mas ela já não tinha mais como passar pelo texto e ler focada em pagar a sua divida espiritual diária e se forçar a prestar atenção no conteúdo à sua frente, dizendo a si mesma que não haveria outra hora do dia para que pudesse se "alimentar" da palavra, como havia aprendido ser essencial. Agora cada linha trazia consigo um momento de inquietação e divagação, os pensamentos não podiam ser contidos. Então, o que faz alguém que considera a disciplina um objetivo de vida? Volta e lê aquela frase, aquele trecho novamente. E de novo. E de novo. E como o período se prolongou cada texto passou a abrir novas janelas de sentido, um novo olhar e muitas perguntas novas. A maioria delas perturbadora. 

 

Amélia nunca questionou sua caminhada de fé. Criada na igreja, sempre se considerou crente e nunca imaginou qualquer outro estilo de vida. Ao deixar sua cidade natal para estudar na capital, a primeira coisa que fez foi procurar uma igreja da mesma denominação para congregar. Fez amizades, se inseriu no contexto e permaneceu. Servia no mesmo ministério que tinha antes e a vida eclesiástica era tão parte de sua rotina quanto sempre havia sido. Nunca questionou as questões principais. Sua natureza tímida lhe rendeu a fama de ser uma boa ouvinte, e seu citar os versículos chave que sempre aprendeu desde a infância ao conversar com irmãos lhe rendeu a fama de uma moça simples e sábia. Via a sua caminhada no evangelho como uma parte integrante de sua vida. Havia um quê de segurança nela por causa das garantias para a eternidade e ela não gostava de se envolver em discussões polêmicas. 

 

Mas de repente, o mundo virou de cabeça para baixo. Ninguém sabia explicar com certeza absoluta como essa doença havia surgido e ainda havia muito que não se sabia de fato sobre seus efeitos e sua propagação. As pessoas de modo geral estavam envoltas em mil discussões nas redes sociais sobre as implicações econômicas, políticas e de saúde da população. Tudo o que se tinha para viver era o hoje em obediência às medidas de segurança, e a espera do que seria o retorno ao que todos chamavam de "novo normal", um termo que já até parecia desgastado. 

 

E foi aí que tudo começou a se complicar. A vida era simples. Ela era uma pessoa honesta, consciente de suas obrigações, trabalhadora, membro de igreja, zelosa de uma conduta que ela considerava em tudo boa. Então porque o mundo parecia não fazer mais sentido? Aos poucos ela foi se dando conta de que todos estes acontecimentos estavam de fato revelando o seu coração.  Sua fé estava firmada em um Cristo histórico que era o exemplo máximo de um homem de bem. Ele fazia a equação parecer balanceada, haja corretamente e seja bem sucedido e até feliz. Tenha expectativa de que disciplina e bons hábito te renderão bons frutos e te farão bem vista pelas pessoas. Mas e agora? O que fazer com os temores sobre o futuro, a incerteza do trabalho do qual estava em férias forçadas? O temor pela saúde da mãe idosa e viúva, ao lado de quem ela não podia estar nesse momento, caso ela adoecesse. Sua irmã mais velha morava em outro país, missionária em um campo de refugiados e até contato com ela era difícil às vezes. O que aconteceria com ela agora? Se algo acontecesse com sua mãe, quem iria ajudá-la a lidar com tudo? De que adiantava uma rotina tão bem estruturada, visando uma vida produtiva, se de um minuto para o outro tudo o que você conhece como seguro está em suspenso? Quem é essa moça que me olha no espelho? O que ela de fato deseja para sua vida? Quem ela é quando não está se relacionando com as pessoas e demonstrando as suas virtudes através de suas atitudes como as "moças de bem" devem fazer? 

 

E a medida que o tempo foi passando, nuances mais assustadoras daquilo que habitava dentro dela foram vindo à tona. A raiva incontida pelas manifestações políticas polarizadas, o desejo de responder palavras duras que eram ditas em voz alta na solidão da sua casa, palavras que assim que saíam dos seus lábios a atormentavam com a pergunta: "quem é você e o que fez com a minha boca?" para no instante seguinte se dar conta de que era ela mesma! Os acessos de julgamento rápido e cruel ao se deparar com postagens de seus irmãos da igreja, tanto quando eles diziam da bondade de Deus e de sua fé no controle do Soberano (estes eram lidos com sentimento de “até parece”, ou "eu te conheço e sei que você não é tão crente assim”), quanto as postagens de festas e passeios em conjunto (estes era vistos com indignação e um senso de justiça própria que condenava os infiéis por não levar o assunto a sério e trazia ressentimento por parecer ser a única que estava disposta a fazer a coisa certa). Em outros momentos havia a certeza da condição injusta de solidão." Eu sempre me comportei bem", pensava, "e sonho em ter uma família, marido e filhos, mas tenho que passar por tudo isso sozinha". Quantas amigas que viveram vidas cheias de mazelas e deram tremendas dores de cabeça aos seus pais estavam casadas! Algumas reclamavam da dificuldade de dar conta de tudo com todos dentro de casa ao mesmo tempo. Que piada! Elas não viam o quanto eram privilegiadas? Era demais!! Todos aqueles pensamentos e sentimentos desordenados eram cultivados e amparados pelo medo, aquela companhia constante que parecia ter se mudado para o seu apartamento e se instalado confortavelmente em todos os cômodos.

 

Por fim, toda aquela fúria, amargura e temor que se tornaram incontidos se voltaram contra o próprio Deus! Que espécie de justiça, bondade e amor poderia haver em um mundo que estava mergulhado neste caos? Se Ele de fato sabia o que estava fazendo, parece que Ele tinha se perdido no meio do caminho e alguma coisa tinha dado muito errado. Pensar tudo isso a enchia de culpa, mas vinha cada vez mais forte. As distrações se tornaram mais constantes e diversificadas, as devocionais menos frequentes e a oração...quase impossível. O entendimento que quem ela era, e a descoberta de tantas coisas que estavam em seu coração amargurado teve efeito devastador. Não gostava dessa pessoa que olhava pra ela do espelho. Não tinha certeza de quem ela era e que sentido de fato a sua vida tinha.

 

Depois de uma noite bem mal dormida, levantou e foi fazer um chá. Quis algo diferente do que vinha tomando e então foi procurar uma latinha no armário que tinha trazido de uma viagem no ano anterior. Mexendo nas suas latinhas encontrou uma que se lembrava de ter visto na casa de sua mãe muitas vezes, mas não recordava de ter trazido na mudança anos atrás. Sua mãe devia ter colocado entre as suas por engano, como nunca havia reparado nela? Pegou a caixa e abriu. Dentro havia uma folha dobrada. Sentou-se à mesa da cozinha para abrir e ler. Reconheceu de imediato a letra miúda da sua irmã, e a página como tendo sido arrancada de um caderno para anotar receitas que sua mãe mantinha na cozinha. Ficou surpresa e de coração apertado, mas leu:

 

“Mila,

Que linda mulher você está se tornando! E com que graça e inteligência o Senhor te presenteou! Sei que Ele fará algo maravilhoso através da sua vida e abençoará muitos através de você, enquanto te torna mais parecida com seu Filho Jesus. Não sei quanto tempo depois que eu deixar o país você vai encontrar estas linhas, mas confio no propósito do Pai para tudo. Noite passada eu sonhei com você, e no meu sonho você me dizia repetidamente que estava certa, e portanto, tudo daria certo. Eu me angustiava no sonho para te dizer algo, mas não conseguia. Acordei hoje cedo orando por você e decidi escrever algo que você achasse só Jesus sabe quando. Nada de místico nisso, que fique claro, creio que tudo o que Deus tinha para nos revelar sobre si mesmo já revelou em sua Palavra. Sempre oro por você e peço a Deus pra me guiar em minha oração. Por isso, quero dizer que te amo e que o Senhor Jesus te ama e cuida de você como ninguém jamais poderia. Mas queria que você soubesse que a misericórdia, graça e amor de Deus por nós não estão ligados à quanto somos dignos. Sabe por que? Porque somos completamente indignos! Por isso Jesus precisou se fazer pecado por nós, para que por Ele fossemos feitos justos diante de Deus. Posso até ver você revirar os olhos agora, pensando em porque eu estou te dizendo coisas que você está cansada de saber. É que sempre vejo você tentando fazer o máximo para que tudo seja perfeito, em tudo o que você faz. Meu temor é que você ache que quanto mais correta for a sua atitude, mais merecedora do amor de Deus você será (e talvez menos dignos os outros vão parecer). Procure lembrar que Ele já te amou e se entregou por você. Ele é a sua justiça, e te ama porque escolheu te amar. Nosso coração é enganoso e fica tentando nos colocar no lugar de Deus e colocar nossa confiança em qualquer outra coisa que não seja nele. Olha, eu não sei mesmo porque estou te escrevendo tudo isso, mas o Senhor sabe. Confio nele e a Ele me entrego. Espero que você sempre faça o mesmo. Com amor e saiba que sempre estarei orando por você e  sentindo saudade, 

Analy

Amélia não conseguia parar de chorar. Apertou o papel contra o peito e respirou fundo. Analy era a única que a chamava de 'Mila'. Era seu modelo de bondade e alegria. Muitas vezes enquanto cresciam e especialmente durante a adolescência Naly, como ela a chamava, tentava conversar com ela sobre seu coração. Mas suas tentativas na maioria das vezes eram recebidas com sorrisos condescendentes e expressões de "eu sei disso". E secretamente, Amélia se ressentia por, para sua irmã, parecer ser tão fácil viver uma vida de alegria e paz em Deus. Quando certa feita a questionou sobre isso com ironia, Naly sorriu com muito afeto e disse que só o Senhor sabia o quanto ela lutava contra o próprio coração! O fato era que agora sua irmã estava ali, naquelas linhas, escritas sabe-se lá quando, escrevendo como se estivesse presente em seu apartamento desde o primeiro dia da quarentena. Deus havia escrito aquelas palavras para que ela lesse naquele exato momento, pelas mãos cheias de amor e submissão de sua irmã. 

Sem perceber, estava de joelhos no chão da cozinha, declarando a sua total incapacidade de continuar. Derramando seu coração diante do Senhor e dizendo que ficava o tempo todo tentando pelos seus próprios esforços ser digna do amor com o qual Ele já havia amado a vida dela antes que houvesse mundo. Confessou que vivia para ser aprovada, que esse era um ídolo horrível que tinha no seu coração, que queria ter o controle sobre tudo em sua vida o tempo todo e que seu coração tinha se tornado incrédulo e amargurado, questionando a Ele em tudo. Enquanto ela ia sentindo o peso terrível da verdade que surgia, ela ia ao mesmo tempo experimentando o consolo do Espírito Santo, que embora trouxesse à tona coisas que ela ainda não tinha consciência que estavam entulhando seu coração, trazia também a certeza do amor e do perdão de Deus, que a enchia de paz e certeza de perdão. Ela não saberia dizer quanto tempo havia permanecido ali. Mas quando se levantou, tomou bastante água e depois fez o chá que finalmente encontrou, sentou-se no sofá deixando-se ficar em silêncio e agradecendo em seu coração por aquela graça que era inexplicável. Naquela noite dormiu como um bebê e acordou no dia seguinte como se tivesse tirado as melhores férias da sua vida. 

Os dias que se seguiram foram marcados por inúmeras descobertas sobre sua vida, seus hábitos e temores, que a faziam ganhar um novo senso de dependência da graça de Deus e gratidão por ela. Houve dias difíceis, e muitas lágrimas. Mas aquele foi o início de uma longa caminhada de abandono de coisas velhas e inúteis para dar lugar a coisas novas e incríveis em sua mente e coração. A primeira coisa da qual ela se deu conta é de que precisava de ajuda para essa caminhada. Lembrou-se de Helena, sua melhor amiga da igreja, com quem tinha um ótimo relacionamento mas a quem ela só contava o que achava que não a faria parecer "menos santa". Sabia que alguém tinha que saber quem ela era de verdade, e o quanto ela precisava de Deus. Precisava dividir com alguém e ter apoio para o que viria a seguir. Marcou com Helena um "chá virtual" para a tarde do domingo seguinte. Mal sabia ela que essa conversa marcaria o começo de algo que mudaria sua vida para sempre! Mas isso é uma outra história...

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