João e a Trilha dos Ofícios - Um conto de Natal

 

1

 

Caía uma chuva fininha e silenciosa. João estava de coração pesado. O dia tinha sido terrível e ele queira chorar, mas não conseguia. Ainda era difícil acreditar que o Vovô não ia mais entrar pela porta da frente com aquele sorriso que só ele tinha e encher a casa e o dia com sua alegria e suas histórias e ideias. Ele sabia que seu avô estava feliz agora, com o Senhor, mas a saudade estava maior do que ele poderia imaginar. Ele também sabia que não era o único este ano que tinha sofrido esta perda, esta dor. Começou a sentir uma raiva, uma amargura, sua mente começou a se encher de perguntas...então se lembrou das conversas com o avô sobre a vida, sobre a morte e sobre os propósitos de Deus. Uma batalha se travava em sua mente. E ele precisava de ajuda para vencer. Pediu ao Espírito Santo consolo.

Sua mãe entrou na sala e veio até a janela, onde João estava debruçado. Trazia um envelope na mão. Quando João se virou para olhar para ela viu de relance o envelope e pôde ver nele um pedacinho do desenho que ele conhecia tão bem, um símbolo, um “selo” de comunicação entre ele e seu avô. A ‘cruz-ponte’ como eles a chamavam. Vovô Lauro vivia dizendo que Jesus era a ponte que cobria o abismo entre o homem e Deus. Todas as vezes que ele queria ensinar algo novo a respeito da Bíblia para João, o que ele fazia muitas vezes através de caças ao tesouro, trilhas de estudo ou bilhetes misteriosos, ele colocava na folha a ‘cruz-ponte’. Uma cruz desenhada na horizontal como se cobrisse o espaço entre dois precipícios: no da esquerda estava escrito Deus, no da direita, na outra ponta da cruz, estava escrito homem. Dentro da cruz as letras que cruzavam da esquerda para a direita formavam a palavra JESUS. Ele aprendera a reconhecer e amar esse símbolo, que enchia o coração dele de alegria e expectativa por saber que o avô ia dividir com ele seu conhecimento da Palavra e seu amor por Jesus de uma forma diferente e inesperada.

Mamãe entregou o envelope em silêncio. João sabia que ela estava tentando não chorar. Depois de alguns segundos ela disse que o vovô tinha deixado este envelope com ela algumas semanas antes, sentindo que talvez não voltasse do hospital. Ele havia pedido que o envelope fosse entregue somente quando eles já estivessem na casa do sítio, onde o vovô havia vivido com a vovó algumas décadas. Era o lugar favorito de João e como ficava apenas 15 minutos de bicicleta da cidade, era para onde ele ia quase todos os seus horários livres. Era onde ele e o vovô exploravam as pequenas maravilhas da criação: as folhagens e flores do jardim da vovó; as árvores de frutos; a silhueta das lindas montanhas; as pequenas lagartas na grama; as galinhas de tamanhos e penas de cores diferentes; o por do sol; as noites estreladas; os raios gigantes com seus poderosos clarões durante as tempestades do verão. O vovô vivia agradecido e maravilhado com a bondade de Deus, e não se cansava de declarar que a diversidade das suas obras era simplesmente incrível. De repente foi como se João vivesse todos aqueles momentos de aprendizado com o avô de uma só vez. Seus olhos começaram a arder. Sua mãe o abraçou e saiu.

João segurou o envelope por alguns segundos. Queria abri-lo imediatamente, mas também sabia que seria o último envelope do vovô que iria receber. Abriu com cuidado e desdobrou a folha. Viu a letra deitada e pequena do avô, tão conhecida e tão amada. Suspirou e leu:

 

Querido soldado João,

            Se você não recebeu este envelope direto da minha mão, creio que agora estou com Jesus, o que é, como já te disse muitas vezes, melhor que qualquer coisa que possa existir. Mas também sei, que para você e toda a nossa família, este é um momento de saudade que machuca. Somos pecadores e temos que passar que pela dor da perda e da separação que o pecado trouxe como consequência. Porém, agora, por mais difícil que seja, preciso que você seja grato ao Pai porque essa separação não é para sempre, porque Jesus venceu a morte por nós e um dia estaremos livres dela definitivamente. Também espero que você esteja grato porque tivemos o privilégio de viver a vida que o Senhor me deu como neto e avô. Eu sempre fui agradecido por isso! Te amo meu querido soldado! Você foi um dos maiores presentes que o Senhor me deu. Seu coração enganoso irá tentar fazer você sentir pena de si mesmo, e achar que o Senhor não podia ter feito isso. Se começar a pensar assim, PARE IMEDIATAMENTE. Nosso Deus é bom, perfeito e sabe o tempo de todas as coisas. Agradeça pelo tempo que tivemos, foque nisso. O Espírito Santo é consolador e está presente com você.

            Mas vamos ao que de fato interessa! Este fim de ano, vamos investigar mais alguma pérola preciosa de conhecimento sobre Jesus como sempre fazemos perto do natal. Sabendo que talvez eu fosse chamado para junto do Pai antes de terminarmos nossa empreitada, tomei a liberdade de fazer uma trilha para você. Lembre-se de fazer o percurso em oração e bíblia na mão. Sem sua espada, soldado, você estará completamente perdido!

            Este ano, vamos investigar os três ofícios de Jesus, você sabe quais são? Bem, siga as pistas e descubra! Deixe seu coração se encher de surpresa e gratidão pelo tamanho do amor de Deus por nós que Ele demonstra em Jesus. Que isso encha sua vida de esperança e propósito, e, enquanto estive por aí essa foi minha oração, que esse conhecimento também acalme o seu coração nesse momento.

             Vamos começar a trilha pelo lugar mais cheiroso da casa. Vovó Naná sabe o que fazer e vai te ajudar a encontrar o próximo pedaço do nosso mapa. Antes de começarmos a falar sobre estes ofícios, preciso perguntar: Você sabe o que é um ofício? Vá descobrir então!

 

Até breve,

Servo Lauro

 

 

João não tinha percebido, mas estava chorando. Sentia cada palavra naquela folha como se elas o abraçassem. O Vovô Lauro destilava graça e bondade por todos os poros. Conhecia muito, mas era humilde e fazia questão de assinar Servo, em tudo que escreviam um para o outro. Ele era a razão pela qual João havia ficado curioso sobre Deus desde cedo. Queria ser como aquele homem grande e gentil, firme e cheio de alegria. Aos poucos, foi descobrindo que queria conhecer o Deus que fazia dele aquele homem incrível, o mesmo Deus que ele também percebia na vida de seus pais. E foi assim que João recebeu o maior presente de todos: fé para reconhecer que era pecador e que precisava do sacrifício de Jesus para ser perdoado e ter nova vida em comunhão com Deus. Foi durante o mês de Dezembro, em um dia ensolarado em que ele e o avô seguiam uma dessas trilhas aprendendo sobre Deus, uma das primeiras. Foi o dia mais feliz de sua vida, ainda na infância.

Desde então, estes momentos de aprendizado eram um esperado evento, e o do natal costumava ser o mais elaborado de todos, já que o vovô amava o Natal. Ele não podia acreditar que este seria o último. Parecia tão injusto! Mas então antes de seguir por essa linha de pensamento se lembrou da recomendação do avô, e agradeceu a Deus pela vida dele.

            Dobrou a folha com cuidado e devolveu ao envelope. Caminhou para a cozinha. Foi só então que percebeu que a casa toda já cheirava a broa de milho. Já entrou pela porta sorrindo. Sua Vó o viu entrar e já apontou para a cadeira, sorrindo de volta.

 

 

2

 

            Sua avó já tinha colocado a mesa. Os pratos antigos e de lindos desenhos de flores. As canecas de cerâmica que imitavam esmaltado, que o vovô amava. E no meio da mesa, uma linda broa de milho e um pote de goiabada mole. João sentou e a vó serviu um pedaço generoso, dizendo que ele colocasse goiabada à gosto. Ele fechou os olhos e sentiu o cheiro gostoso da broa, que se misturava ao cheiro de café fresco. Colocou uma colherada generosa de goiabada na beirada do prato e começou a comer. A vovó demorou um tempo para sentar e começar a falar. Parecia estar tentando se concentrar ou se recompor.

            João não conseguia imaginar como a vô Naná estaria se sentindo nesse momento. Tinha sido casada com o vô Lauro por 35 anos, mãe de três filhos e vó de 8 netos. Havia morado naquela casa com ele por mais de 25 anos. Como seria viver ali sem ele? Percebeu que ela estava ao mesmo tempo feliz em participar desse momento entre ele e o avô, mas também contendo a emoção pela sua própria dor e saudade. Seu coração se encheu de ternura por ela.

            Quando ela começou a falar, sua voz era suave, mas firme. Começou dizendo que o Vô Lauro tinha pedido que ela contasse uma pouco da história de vida dela. Ele não sabia, mas sua avó tinha se formado enfermeira antes de se casar. Filha de imigrantes italianos, nascida no Brasil, havia crescido ouvindo histórias sobre a Europa e, sobretudo sobre os horrores da guerra. Conhecera Jesus ainda jovem, aos 20 anos, e desde sua conversão sonhava em servir pessoas sendo profissional da saúde. Seus pais vieram a Cristo através de seu testemunho, pois viram o quanto a graça de Deus a havia transformado de uma moça inconformada com a injustiça e a dor do mundo de forma amargurada, em uma mulher amorosa e disposta a se doar por outros. Por isso, eles não se surpreenderam e até se alegraram quando ela contou a eles seus planos de se tornar enfermeira e quem sabe um dia missionária, servindo através de sua profissão.

            Quando estava para concluir seu curso fez um estágio em uma pequena cidade do interior. Além das horas de estágio no hospital local, ainda trabalhava em uma clínica na zona rural da cidade, para ajudar a custear a sua estadia. Sentia falta da igreja de sua cidade, mas frequentava os cultos da pequena congregação do vilarejo onde trabalhava. Aprendeu muito sobre amar e valorizar a Palavra de Deus com aquele povo simples, que estudava e se ajudava no entendimento e aprendizado dessa palavra com afinco e dedicação, procurando viver vidas piedosas. Recebiam a visita de um pastor uma vez por mês, e toda vez que vinha um seminarista em passagem pela região ou um presbítero ou pregador da cidade mais próxima, os recebiam com alegria e gratidão.

            Certo dia a ponte que dava acesso à cidade mais próxima, que estava sendo refeita em parte e ampliada desabou sobre alguns trabalhadores. Foi um alvoroço geral e toda a comunidade se dirigiu ao local para ajudar. Havia mais de 20 trabalhadores feridos e dois ainda estavam desaparecidos quando a notícia chegou, sendo depois encontrados sem vida, para a tristeza de todos. Toda a pequena vila se mobilizou como pôde e a então quase formada enfermeira Joana se viu à frente da organização do socorro das vítimas, triando os feridos, pedindo e direcionando os materiais necessários e atendendo as vítimas. As ambulâncias que levariam os mais graves para o hospital maior mais próximo teriam que fazer um caminho mais longo com a ponte interditada, então alguns procedimentos de emergência tiveram que ser feitos na pequena clínica da vila mesmo. Em certo momento mais tenso ela foi até a  área de espera perguntou se havia algum doador de sangue universal e um rapaz gritou: “Aqui, eu sou doador universal!”. Ela o levou para dentro de uma sala e imediatamente começou a coleta. Embora o momento fosse urgente e ela estivesse focada, não pôde deixar de notar seus traços fortes e expressão decidida e sem medo. Pensou que nunca o havia visto antes e desejou saber quem ele era, mas aquele não era o momento. Voltou para os outros atendimentos, outra enfermeira acabou por pegar a bolsa de sangue e ela não viu o rapaz sair. Sentiu certa tristeza por não descobrir quem ele era, mas estava ocupada demais para pensar nisso.

            Algumas semanas depois, a igreja da cidadezinha realizou um culto na praça central. Choraram com as famílias dos dois trabalhadores que partiram, e se alegraram com aqueles que haviam sido poupados. A enfermeira Joana sentia que tinha vivido algo único, que mudara para sempre sua visão romântica do que era estar presente em momentos difíceis, e de fato servir em tempos de necessidade. Quando o pregador foi chamado ela olhou para o púlpito e para a sua surpresa, lá estava ele, o doador de sangue misterioso! Descobriu que ele era o então diácono Lauro, da igreja da cidade mais próxima, da qual a sua amada igrejinha era congregação, e estava na vila no dia do acidente em visita a uma tia doente. Ela sentiu seu coração bater mais forte e percebeu como ele era firme também nos gestos e fervoroso em sua pregação. Percebia-se o seu amor por Jesus e sua convicção através de cada palavra.

            Bem, eles conversaram após o culto, ele se lembrou dela e perguntou seu nome. O resto é história. Ele veio à sua congregação várias vezes nas semanas seguintes e sempre era convidado por uma das famílias da cidade para o almoço, ocasiões em que os irmãos aproveitavam para convenientemente convidar a enfermeira Joana, que era muito querida na cidade. No fim daquele ano ela retornou à sua cidade e dias depois recebeu a visita dele na casa dos seus pais, com um pedido de casamento. Casaram-se menos de ano depois de se conhecerem.

            João não conhecia aquela parte da história de sua avó. Sempre a conheceu como a vovó Naná, dona de casa, mãe e avó. Vovó sorriu ao ver sua surpresa. Disse que ele deveria estar se perguntando o porquê de o vovô pedir a ela para contar essa história. Ela explicou que o início da trilha para descobrir e meditar nos ofícios de Jesus que o vô Lauro queria fazer com ele passava pelo entendimento do que era ofício. E explicou que o termo ofício significa trabalho, profissão, e isso João já sabia. Mas, a vovó explicou que sua história ilustrava bem o sentido mais profundo de ofício que até o dicionário trazia que era o de realizar uma atividade de trabalho que requer uma habilidade específica. E aqui, afirmava a vovó com um sorriso, podia-se começar a ver a beleza do evangelho na vida de alguém, para se entender melhor os ofícios que o Senhor Jesus desempenhou, por amor de nós.

            A vovó deixou bem claro que sempre creu que seu ofício, vida e ministério estavam na enfermagem. Era a isso que queria dedicar a sua vida, e acreditava que seria feliz fazendo isso e era o que Deus esperava dela. Porém ao decidir se casar com Lauro, que era engenheiro recém-formado e tinha conseguido um bom emprego em uma empresa de construção de estradas na região, percebeu que poderia servir e cuidar, pois estas eram suas habilidades e este era o seu ofício, independentemente de estar servindo como enfermeira, como dona de casa, como missionária ou como outra coisa. Continuou trabalhando em hospitais por mais alguns anos até o nascimento de seu segundo filho e depois se dedicou à família em tempo integral, considerando este o seu maior privilégio. Era agradecida ao Senhor por cuidar e servir e continuava desempenhando o seu ofício na vida de muitas pessoas em diversas situações, algo que ela gostaria de fazer com fidelidade e alegria até ser chamada para estar com o Senhor. Houve momentos de dúvidas ao longo dos anos, sim, e foram muitos. E também sentimentos de perda, de ressentimento até em seu coração por suas escolhas, segundo ela mesma, fruto desse miserável coração de pecadora. Mas ela continuava crendo no propósito de Deus para o seu ofício, resolvia suas questões com o  Senhor e seguia em frente.

            João a esta altura estava fascinado pela história e pela vida da Vovó Naná. Percebeu que ela de fato havia nascido para cuidar, e que fazia isso com todas as pessoas ao seu redor. Ele se lembrou de ver muitas jovens mães de primeira viagem da região, que vinham tomar café com broa e pedir conselhos sobre a saúde e cuidados de seus bebês.  Recordou das inúmeras vezes em que foi chamada para cuidar dele e de sua irmã Catarina quando estavam doentes. Via sua vó cuidando de mulheres da igreja, aconselhando, visitando, ajudando em projetos e sempre demonstrando amor. Ela se impacientava com eles quando eram crianças, às vezes era ríspida com pessoas incorrigíveis e que não se emendavam, mas estava sempre pronta a pedir perdão quando se excedia e caminhar adiante com os que queria ajudar, mesmo com prejuízo para si mesma. João olhou pra ela com muito carinho e agradeceu por sua história e por ser quem era. E garantiu que havia entendido a ideia do ofício. Ele só tem sentido se for para agradar a Deus em primeiro lugar.

            Vovó Joana balançou a cabeça afirmativamente. Seus olhos estavam marejando. Ela disse ao neto que o vô Lauro entendia isso como ninguém. E que agora ele estava pronto para receber o próximo trecho da trilha. Abriu a gaveta do armário da cozinha e tirou um caderno de capa dura, igual aos que o vovô tinha para anotar sermões e estudos bíblicos, que entregou a ele. O rapaz reconheceu de imediato a cruz-ponte na capa, que o vô tinha desenhado em outro papel e colado ali. Seu coração acelerou.  A vovó Naná recomendou que ele seguisse as instruções como estavam escritas, que estudasse um ofício de cada vez e fosse seguindo a trilha, como o vovô havia planejado. João abraçou a avó e eles choraram juntos por algum tempo ali em pé na cozinha que ainda cheirava à broa de milho, à amor, dedicação e uma boa dose de saudade.

 

 

 

3

 

João dormiu bem aquela noite. Antes de dormir começou a ser tomado por aquela raiva e tristeza que insistia em querer controlar cada pensamento seu. Orou sentado em sua cama, clamando ao Senhor para trazer a sua memória a esperança da ressurreição e consolo!

 No dia seguinte acordou antes de todo mundo e foi para a varanda, Bíblia em uma mão, caderno de trilha na outra. Sentou à mesa de madeira que o vô gostava de usar para estudar do lado de fora da casa até escurecer. Orou agradecendo pela vida de seus avós, pela bondade de Deus e pediu graça para suportar a saudade. Pediu para que Deus sondasse seu coração e visse se havia ressentimento pela partida do avô. Pediu perdão por duvidar de sua bondade e pediu para que sua palavra mudasse a sua vida durante aquela nova trilha de aprendizado.

Abriu o caderno. Ele já tinha lido a introdução que o avô tinha escrito na noite anterior. Ele falava sobre a questão do ofício, perguntando se João havia entendido o que o avô quis demonstrar com a história da vovó, da ‘sua Naná’, como ele carinhosamente se referia a ela. Ler suas instruções e perguntas era como conversar com ele, o que trazia um misto de alegria e saudade.

Pediu que João lesse todos os versículos citados nos estudos e que no final do estudo, não deixasse de comparecer aos locais indicados. Percebeu que havia uma data e horário para cada uma dessas ‘visitas’ como o vô havia chamado e viu que teria que se dedicar de forma organizada para cumprir os prazos.

Virou a página e viu o título:

 

 1º Ofício de Jesus – Profeta – Jesus é o profeta e o cumprimento da profecia também

 

O que quer dizer profeta bíblicamente? Pense, para começo de conversa, em uma ligação entre a voz de Deus e o coração do homem, partindo do próprio Deus.

 

O profeta é aquele que anuncia a mensagem de Deus. Portanto, profetizar é anunciar a vontade de Deus às pessoas (veja Isaías 30.10; 1 Coríntios 14.4). Para a Bíblia, profecia é uma mensagem de Deus concernente a uma determinada situação, seja para trazer encorajamento em períodos difíceis, confrontação em tempos de complacência ou orientação em momentos de incerteza, conforme o Espírito de Deus traz à mente do profeta as palavras exatas que Deus deseja comunicar.

 

O primeiro grande profeta que a Palavra cita é Moisés. Inclusive Jesus é comparado a ele, no sentido de ser o novo Moisés, o profeta prometido (Deuteronômio 18.15 e 18). Deus falava com Moisés face a face (Êxodo 33.11) e revelou a ele a sua lei (Êxodo 20) que apontava para a santidade de Deus e denunciava o nosso pecado. Com isso Ele demonstrava nossa necessidade de redenção e de resgate que Deus mostrou a ele através dos sacrifícios que o povo fazia, ou seja, tudo apontava para Jesus!

 

Depois de Moisés Deus sempre levantava profetas para o seu povo, que exerciam liderança militar e judicial para Israel como nação, como povo, como no tempo dos juízes (como Débora em Juízes 4), mas que ao mesmo tempo proclamavam a lei Deus e apontavam para um acerto de vida com Ele. No tempo da monarquia, os profetas por vezes eram conselheiros dos reis ou denunciavam seu afastamento de Deus e da sua lei (como Elias em 1 Reis 22). Eles não eram apenas pregadores, eles eram as vozes das alianças que Deus fez com seu povo, sendo a consciência espiritual da nação, para fazer reis, sacerdotes e todo o povo lembrar-se de suas obrigações diante de Deus e do próximo. Quando faziam isso, mostravam ao povo que o fundamento da aliança de Deus com seu povo não estava nos rituais religiosos, mas no amor de Deus para com seu povo.

 

A medida que o tempo passou e Deus foi se revelando ao seu povo de forma cada vez mais clara, os profetas foram falando mais claramente da ideia de que o povo de Deus seria plenamente ligado à Ele em paz, justiça e cura através de uma grande e maravilhosa obra que hoje conhecemos: a obra de Jesus. Portanto, se pensarmos bem, toda a profecia aponta em certa medida para Jesus. E não houve nenhum acontecimento na história da humanidade que fosse profetizado com tanta riqueza de detalhes, centenas de anos antes, quanto a vinda de Jesus, desde seu nascimento até seu ministério, morte e ressurreição. Coloquei, no final do caderno uma lista de 365 destas profecias para você ler e meditar no ano que vem. Uma para cada dia do ano! Espero que elas te motivem a perceber o domínio do Senhor sobre tudo e a sua fidelidade em cumprir a sua Palavra, soldado! Mas avancemos!

 

A Bíblia chama Jesus de profeta (Mateus 21.11,46; Lucas 7.16; 24.19; João 9.17). Jesus é o profeta por excelência, porque ele nos revela Deus e a vontade de Deus para nós como nenhum outro jamais fez ou fará. Ele fala da condição do homem e da nova aliança com Deus para remissão dos pecados e para entrada no reino. Você lembra o texto de Hebreus 1.1-3 que já estudamos? Deus falou antes pelos profetas, mas agora nos fala pelo filho, Jesus é o verbo! (João 1.1-14). Mas Jesus não começou seu ofício de profeta quando veio ao mundo como homem-Deus, ele sempre teve esse encargo antes da fundação do mundo. Ele é o princípio e o fim de todas as coisas. Ele é o Logos de Deus, a palavra criadora do Pai lá no nosso início (Gênesis 1.3 que está descrito novamente lá em João 1.1-4; veja também Colossenses 1.16). Em Apocalipse Jesus aparece como a testemunha fiel (1.5) que traz revelação através de seu servo João, (seu xará) que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos o que em breve há de acontecer (1.1).  Ele é digno de abrir os sete selos da revelação do juízo de Deus (6.1). Por tudo isso Jesus é O Profeta e o cumprimento da profecia também. (...)

 

            João passou algumas horas ali. Recebeu um café da manhã que sua mãe trouxe, e comeu sem parar de estudar. Leu e releu as anotações do avô. Leu os textos, leu algumas referências cruzadas nos textos iniciais, como tinha aprendido a fazer. Fez algumas anotações suas e fez várias pausas para pensar em tudo aquilo. Sempre ficava maravilhado de perceber, como vó Lauro havia mencionado muitas vezes, como a Bíblia inteira, escrita por tantos autores diferentes, em um período de tempo tão longo, se encaixava, fazia sentido, era atual e perfeita, e apontava para Cristo!

            Pensou em tudo o que tinha estudado e sabia o que viria a seguir. Seu avô sempre tinha uma forma de ‘apontar a seta para a nossa vida’, como ele dizia. “Nunca estudamos a Bíblia para simplesmente saber mais, soldado! Ela ‘nos estuda’ quando nós a estudamos, nos confronta, nos molda, tem que mudar nossa maneira de ver as coisas e de viver a vida!”. Leu a página seguinte:

Atenção para os alertas!!!! (As trilhas do Vovô eram cheias de alertas, perigos que vinham de ‘pensar errado’ aquilo que a Bíblia de fato diz)

 Deus revela seu caráter através da profecia. O que a Bíblia chama de profecia para nós hoje, é a proclamação da Palavra de Deus e não uma revelação mística do futuro. Cuidado, meu filho, como já conversamos antes, tem muita gente hoje indo atrás de ‘revelação’ de Deus como se fosse uma consulta sobrenatural a algo místico. Isso é pecado, e é falsa religião.

Sofro de pensar que muitos estão deixando a Palavra do Senhor de lado e ouvindo vozes de engano, ou procurando por pessoas que digam o que eles querem ouvir. A própria Bíblia já falou sobre isso (2 Timóteo 4), mas sempre orei por você para que você seja firme na busca pela verdade da Palavra e se firme nela para viver uma vida que agrada a Deus (2 Timóteo 3.14).

E finalmente, é hora de virar a seta. Como tudo isso está relacionado comigo e com você? Bem, somos chamados a ser imagem de Deus, ainda que quebrada pelo pecado, mas em Jesus, estamos sendo restaurados nessa imagem cada dia mais (2 Coríntios 3.18), até que isso seja pleno na volta gloriosa do Senhor! Portanto, ao imitá-lo como profeta, precisamos ensinar tudo aquilo que Deus falou através do Filho nos últimos tempos (Mateus 28.18-20), proclamando a mensagem de juízo e salvação do evangelho (Marcos 16.15; Romanos 2.16; 2 Coríntios 2.14-17) e sendo, como igreja, coluna e firmeza da verdade (1 Timóteo 3.15).

E agora meu amado soldado João, está na hora conhecer alguém com quem conversar sobre este assunto. Você vai ao seu primeiro compromisso.

 

            João ficou pensando nas palavras do Vô Lauro. Ficou curioso sobre a primeira visita. Viu o endereço – Rua dos Carvalhos, 100. Demorou apenas um segundo para descobrir onde estava indo: “Eu vou visitar o Tio Pedro!”. Ficou feliz e ao mesmo tempo surpreso. O que será que ele tinha a ver com essa história. No dia seguinte, João ia descobrir.

 

4

 

            João tinha passado a manhã ajudando a Vó Naná a separar umas louças de Natal para guardar nos armários mais acessíveis da sala de jantar. Ele ainda não sabia o que pensar sobre o fato de que a família ia se reunir novamente para celebrar o Natal em algumas semanas, quando tinham acabado de se reunir para se despedir do vovô. Não parecia certo... Mas ele guardou seus pensamentos para si mesmo e ajudou em silêncio. Sua mãe que separava os enfeites para as janelas na sala ao lado e o observava enquanto trabalhava. De vez em quando ele a surpreendia olhando para ele. Ela parecia saber o que ele estava pensando. Bem, ela SEMPRE parecia saber o que ele estava pensando.

            Quando eles terminaram sua avó foi cuidar do almoço e sua mãe o chamou para ajudar a pendurar os enfeites das janelas. “Ela vai me perguntar o que eu acho desse ‘natal em família’. O que eu vou dizer?”. Ficou pensando que sua mãe queria ouvir ele dizer que estava tudo bem, então é o que ele diria. Mas imediatamente se lembrou que não era verdade e se entristeceu. Resolveu esperar para ver como seria a conversa.

            Sua mãe perguntou como ele estava e disse que ele poderia ser sincero com ela. Ele disse que estava triste pela partida do vô e agradecido ao mesmo tempo pela vida dele, mas que estava lutando contra sentimentos de raiva e certo senso de injustiça. Sua mãe disse que entendia, e que estava lutando com esses sentimentos também, acrescentando que não sabia que a ausência de seu pai, apesar de ser recente, já causaria uma saudade doída e maior do que ela poderia imaginar.

João sempre se surpreendia com a sinceridade de sua mãe. Ela era coerente e sempre dizia o que pensava. Por vezes isso a colocava em situações difíceis e em muitas ocasiões ela se excedia na maneira de ser sincera, mas com a mesma facilidade, se apontavam a ela seu erro, ela reconhecia onde tinha escorregado e admitia. Pedir perdão parecia fácil para ela, mas João sabia, que nem sempre havia sido assim. Ela já tinha contado a ele que seu temperamento a impedira de ter amigos chegados até quase o fim de sua adolescência. Ela era crítica e cruel em seus comentários e as pessoas tinham certo “medo” dela. Sempre dizia que Jesus a tinha encontrado escondida atrás de seu ego enorme e desde então vinha tentando colocá-la no seu devido lugar.

Ela sabia, como João já suspeitava, o que ele estava pensando sobre o Natal. Por isso apenas disse que se ele quisesse conversar sobre isso ela estava ali para ele. Ele apenas sorriu sem jeito e disse que ainda não queria falar sobre o assunto. Ela sorriu e mudou o rumo da conversa. Até a hora do almoço já tinham terminado quase toda a decoração externa. Almoçaram os dois e Vovó Naná. João pegou seu caderno e deu mais uma passada rápida no primeiro ofício da trilha. Depois o colocou junto com sua bíblia na mochila e partiu para a casa do Tio Pedro. O caminho era uma meia hora de bicicleta. Mas estava um dia nublado e agradável, e João pedalou aproveitando a vista. Foi orando para que Deus estivesse com ele nessa visita.

Tio Pedro não era de fato tio de João, mas um amigo antigo de seus avós que era o famoso ‘tio de consideração’. Desde que João era menino tio Pedro estava sempre em todas as festas da família dele, com tia Celeste, que havia partido para o céu alguns anos atrás. João também sempre via o Vovô Lauro caminhando com tio Pedro pelas ruas da cidade, conversando. E muitas vezes chegou à casa do avô e viu os dois sentados à mesa estudando a Bíblia juntos. Eram amigos de longa data.

Antes que João pudesse tocar a campainha tio Pedro abriu a porta. “Estava esperando por você, rapaz! Entre, entre, que tenho histórias pra te contar!”. João ficou ainda mais curioso. Eles sentaram no alpendre nos fundos da casa, de onde dava para ver as jabuticabeiras do enorme quintal do tio Pedro. O tio foi logo entrando no assunto e perguntou a João se ele sabia como tinha começado a amizade entre ele e o Vô Lauro. João disse que não.

Então tio Pedro recostou na cadeira e pareceu viajar no tempo. Ele era representante comercial de materiais de construção e fornecia suprimentos para a empresa onde o Vô Lauro trabalhava. Ambos tinham que viajar pelas estradas em obras e muitas vezes se hospedavam nas mesmas pensões de beira de estrada, onde conseguiam achar lugar. Tio Pedro também era recém-casado e poucos anos antes havia começado a frequentar uma igreja da cidade, mas que não era a mesma igreja do Vô Lauro. Sempre que conversavam, Pedro perguntava por que a igreja de Lauro era tão fria, porque não faziam orações de poder e nem tinham revelações de Deus. Chegou a perguntar certa vez se Lauro era crente mesmo, porque não parecia ter ‘fogo de Deus’ na sua vida. Lauro era sempre gentil e educado com ele, e dizia que amava Jesus mais do tudo nesta vida, e que tudo o que ele precisava saber sobre o Senhor estava na Palavra de Deus, na Bíblia. Pedro zombava dele e dizia que ele precisava ir à sua igreja e conhecer o poder de Deus, isso sim. 

Tio Pedro parou por um instante e olhou bem nos olhos de João. Recostou para frente na sua cadeira e disse:

“Seu avô teve paciência comigo no começo porque ele sabia a verdade. Eu não sei como, mas ele sabia. Ele sabia que minha fachada de ‘homem de Deus’ era apenas isso...uma fachada. Eu não tinha paz. Eu era inseguro e ciumento e nunca tinha sossego. Eu ia a minha igreja para sentir alguma emoção e quando via as pessoas falarem alto e dizerem com toda aquela segurança que Deus falava com elas eu também queria aquilo. Eu me esforçava ao máximo para ser um bom sujeito, honesto, provedor, fiel à minha mulher. Na minha cabeça, eu tinha certeza que tinha certo ‘crédito’ com Deus, mas eu queria ter certeza, e nada me dava essa certeza. Eu tinha medo de ler a Bíblia porque quando eu tentava eu não entendia quase nada. Mas para não parecer diferente ou menos ‘poderoso’ que meus irmãos eu orava em voz alta e repetia tudo aquilo que eles diziam em suas orações, sempre clamando pelo poder de Deus. Eu não entendia o que era esse poder, mas sabia que precisava tê-lo de qualquer maneira então eu fazia tudo o que meus irmãos de igreja diziam que tinha que ser feito. Eu me desesperava por receber uma palavra ‘profética’ em algum culto, e antes de sair de casa fazia perguntas específicas para Deus em minha mente para Ele responder na ‘revelação’. Quanto mais a resposta demorava, mais eu me angustiava. E quando por vezes alguém ‘revelava’ alguma coisa específica para mim, aquilo não me parecia fazer sentido, mas eu reagia como achava que era esperado de mim e julgava que a forma de Deus falar era misteriosa.Eu estava sempre inseguro e cheio de temor. Quando viajava sozinho, muitas vezes chorava até dormir em um quarto de pensão qualquer, pensando que Deus não me queria ou por que Ele não falava comigo”.

Ele parou por um instante, tentando conter as lágrimas. Abriu os braços em um gesto largo e balançou a cabeça, como se quisesse explicar tudo de uma vez só e não soubesse como. Continuou:

“Aos poucos seu avô foi abrindo espaços de conversa comigo, ganhando minha confiança. Ele sempre falava sobre a bondade de Deus e seu cuidado com ele, de como ele era grato ao Senhor por isso, por ser indigno, mas amado por Deus. Eu via a confiança e paz que ele transparecia, mesmo quando compartilhava suas lutas. Devagar fui deixando escapar como eu me sentia, eu fui fazendo perguntas. Era o que o seu avô precisava! Ele começou a me ensinar a Palavra, pregando o evangelho, puro e simples, falando sobre nossa condição de pecadores e sobre o sacrifício de Jesus, santo e perfeito, pelos nossos pecados. Eu questionava sobre saber como agir, saber as respostas, saber o futuro, mas aos poucos ele foi me mostrando que a Palavra de Deus tinha todas as respostas sobre quem eu era e quem Deus era, e que enquanto me relacionava com o Senhor em amor e dependência, Ele me ensinaria como viver para a glória dele, me tornando mais parecido com seu Filho Jesus, que era o que de fato importava. Eu me lembro do dia em que ele me perguntou assim, diretamente: ‘Você tem certeza de que já nasceu de novo?’ Aquela manhã de terça feira, na mesa de uma padaria em uma pequena cidade do interior, eu orei me arrependendo dos meus pecados e confessando a Cristo como meu Senhor e Salvador. Nunca houve dia mais feliz na minha vida!”. – Nessa hora as lágrimas de fato desceram pelo rosto do Tio Pedro. Ele segurou uma das mãos de João e deu um leve aperto, enquanto tomava fôlego para continuar.

“Comecei a ansiar por estas viagens em que encontrava seu avô. A Celeste começou a perceber mudanças em mim. Ela me via lendo a bíblia pelos cantos, o que ela jamais tinha visto. Um dia quando ela me viu orando baixinho, sentado aqui mesmo nesse alpendre, me perguntou o que estava acontecendo comigo, com um sorriso nos lábios. Contei a ela sobre tudo o que seu avô compartilhou comigo. Ela não cabia em si de contente. Sabe, sua tia Celeste era uma mulher sábia e cheia do Espírito Santo. Ela vinha orando por mim e pedindo ao Senhor para que nós encontrássemos um lugar para congregar onde pudéssemos aprender mais sobre o evangelho de fato. Quando ela me disse isso eu imediatamente perguntei se podíamos visitar a igreja do seu avô no dia seguinte, que era um domingo. Fomos recebidos lá como membros antigos da família desde o primeiro dia. A Celeste congregou lá enquanto viveu e lá estou até hoje. Seu avô, após ser diácono por alguns anos, tinha sido eleito presbítero um ano antes da nossa chegada, e tivemos a alegria de não só fazer a classe de novos com ele, mas de tê-lo lá na frente ao lado do pastor no dia em que fomos recebidos. Sabe, João, seu avô não queria que eu te contasse nada a respeito dele, só me pediu para contar minha história de como eu cria em um deus que tinha inventado e como conhecer a Palavra do Senhor havia me libertado de fato do pecado. Ele me pediu para te lembrar de que a verdade é Jesus, aquele que é fiel às suas promessas, aquele sobre quem tantas coisas foram profetizadas e todas se cumpriram. Com seu avô também comecei a aprender que Jesus é o profeta por excelência, porque Ele veio para mostrar a Deus de forma completa!”.

João não fazia ideia de nada daquilo. Ficou impressionado com a história daqueles dois amigos que ele via conversando e orando juntos desde que podia se lembrar. Tio Pedro explicou para João que seu avô havia feito um papel de verdadeiro profeta em sua vida, ministrando a Bíblia, a Palavra de Deus a ele. Disse também que várias pessoas que hoje sentavam nos bancos da igreja tinham histórias semelhantes a dele. Ele lembrou que o vô Lauro era um pregador apaixonado, estudioso da Palavra e que os irmãos da igreja amavam ouvi-lo, porque sabiam que iam ouvir a voz de Deus, na exposição da Bíblia.

A conversa seguiu animada por mais algum tempo. Quando João voltou para casa da avó naquela noite, sentia tantas coisas ao mesmo tempo que ele nem saberia explicar. A saudade do vô apertou, mas a alegria de saber mais sobre sua vida e ministério também aumentou. Embora ele soubesse e entendesse que o objetivo do avô com a visita dele ao Tio Pedro era trazer um maior entendimento sobre Jesus e seu ofício de profeta, João também sabia que o avô tinha vivido esse ofício, profetizando a verdade da Palavra, ou seja, pregando o evangelho.

Aquela noite ele adormeceu depressa. Estava cansado, mas também querendo que o dia amanhecesse rápido, para que ele pudesse continuar seguindo a trilha.

 

5

 

Vovó Naná encontrou João sentado debaixo de uma árvore na manhã seguinte. Viu que ele tinha o caderno nas mãos e a Bíblia aberta ao seu lado. Ainda era cedo então ela se admirou: “Você acordou com as galinhas, meu filho? Fui te acordar para o café e achei sua cama arrumada!”.

João sorriu. Disse a Avó que tinha acordado com o sol. Tomaram café juntos. Sua mãe tinha voltado para a casa deles na noite anterior para resolver umas coisas e passar um tempo com o marido, Ângelo, e matar as saudades, como ela mesma tinha dito. Enquanto comiam, João se lembrava das páginas do caderno que tinha estudado:

 

2º Ofício de Jesus – Sacerdote – Jesus é o sacerdote e o sacrifício também

 

Bem soldado, vamos falar sobre o sacerdócio de Jesus. Mas antes de começarmos vamos lembrar que eu disse que o profeta apresentava Deus diante do povo, mostrando o que Deus dizia. Pois bem, o sacerdote apresentava o povo diante de Deus, pedindo misericórdia e apresentando sacrifícios para tornar esse povo ‘aceitável’ diante de Deus.

 

Para entender isso precisamos voltar ao começo. Deus criou todas as coisas perfeitas e fez o homem, coroa da sua criação (Leia o Salmo 8 e medite nele). Isso quer dizer que com o homem, Ele compartilhou algumas das suas características e deu a ele domínio e função de cuidado sobre toda a terra! (Gênesis 1.26-28). Mas como você já sabe, o homem que devia viver em obediência e dependência de Deus pecou, desobedecendo sua única restrição, por querer ser independente, igual a Deus (Gênesis 3). Deus sendo Santo (totalmente reto, puro e perfeito), já não podia se relacionar com o homem, estar com ele. Era preciso que alguém perfeito sofresse o dano, pagasse o preço da injustiça cometida e satisfizesse a justiça de Deus, abrindo de novo o caminho para que o homem pecador e impuro pudesse ser considerado limpo pelo sacrifício de Cristo e pudesse se relacionar com o Deus Santo novamente. Como você sabe, desde o início Deus já prometeu que Jesus viria e se ofereceria para isso (Gênesis 3.15). E enquanto esse dia não chegava, Ele deu ao seu povo a sua lei, para mostrar a eles o seu pecado e mostrar através dos sacrifícios e do sangue de animais que tomavam o lugar dos pecadores, que o pecado merece a morte (Romanos 6.23). Aquele sangue fazia expiação (essa palavra significa “cobrir”, ou seja, aquele sangue cobria o povo da ira de Deus) e apontava para o sacrifício perfeito que Jesus iria oferecer, de uma vez por todas, pelo pecado! (Hebreus 9.11-12).

 

Havia algumas páginas detalhando o Sacerdócio de Cristo, explicando que o Senhor Jesus era sacerdote porque representou o povo diante de Deus, ao mesmo tempo em que era o sacrifício, pois ofereceu a si mesmo pelos nossos pecados. O Vô Lauro demonstrou passeando pelas Escrituras que o sacerdócio de Cristo era superior porque o sacrifício que Ele ofereceu removeu nosso pecado para sempre (Hebreus 5.9), selando com o seu povo uma nova aliança no seu sangue (Hebreus 10.29), com promessas de vida eterna, baseadas na fidelidade de Deus (Hebreus 6.18). O Vô tinha dado especial ênfase ao fato de que agora, nessa nova aliança, todos os que nasceram de novo em Cristo Jesus são chamados de sacerdotes, todos os que foram lavados pelo seu sangue podem agora estar diante de Deus. João ficou meditando firmemente nessa parte do caderno.

 

(...) E agora então que somos seu sacerdócio real (1 Pedro 2.9), somos chamados para ‘proclamar suas virtudes’.Nosso sacerdócio hoje soldado, quer dizer que intercedemos pela salvação das pessoas (1 Timóteo 2.1-4), clamando por sua salvação e apresentando-as diante de Deus, e pregamos o seu evangelho, que é o único capaz de libertar do pecado e livrar da ira de Deus através do sacrifício de Cristo. Também cuidamos uns dos outros e nos exortamos a viver e praticar a Palavra, oferecendo-nos como sacrifício ao Senhor (Romanos 12.1-2), batalhando contra o pecado com o auxílio do Espírito Santo, e lutando pela manutenção da nossa fé e a dos nossos irmãos, e também pela salvação daqueles que ainda não o conhecem. (...)

 

            João ficou pensando muito sobre tudo aquilo. Ele sempre tinha em mente o sacrifício de Jesus por seus pecados e entendia essa história da nossa reconciliação com Deus por causa de sacrifício, mas nunca tinha pensado em nosso sacerdócio, embora ouvisse falar disso o tempo todo na igreja, da perspectiva que o Vô Lauro tinha apresentado. Ele sabia que tinha que pregar o evangelho e tentava se tornar mais intencional e pedia a Deus mais “coragem” para falar de Jesus para as pessoas, mas nunca tinha imaginado que estava apresentando as pessoas diante de Deus e através do seu testemunho, expondo vidas à única possibilidade de serem livres da morte e eterna separação de Deus. Começou a repensar suas prioridades. Ficou ainda mais intrigado porque a visita que iria fazer a seguir era para o Pastor Alécio. Os pastores entediam muito bem como tudo isso funcionava e é claro que eram comprometidos com esse sacerdócio dos crentes até mais do que as outras pessoas, não?

João nem percebeu que estava olhando fixo para um ponto no teto. Quando se deu conta de que estava tão absorto, percebeu sua avó ao seu lado olhando para o mesmo lado, tentando ver o que ele estava vendo de tão interessante ali! Sorriu para ela e se desculpou por estar calado. A avó se limitou a responder carinhosamente que sabia muito bem que o Vô Lauro tinha a capacidade de fazer alguém ficar pensando em algo que ele havia dito por horas, dias até. João beijou a avó e olhou no relógio. Estava na hora da sua visita. Próxima parada: gabinete pastoral!

 

 

6

 

            O gabinete do Pastor Alécio mais parecia uma biblioteca. Havia estantes em três das quatro paredes e sua mesa tinha duas ou três pequenas pilhas de livros que pareciam estar sendo lidos ou estudados, todos tinham marcadores em algum ponto. João se perguntou se estavam divididos por assunto. Pastor Alécio era um homem alegre, ‘conversado’, como dizia o povo do interior. Amava uma boa conversa e se encontrava regularmente com o Vô Lauro, algo que João já tinha observado, por vê-los juntos muitas vezes. João tinha aquele olhar curioso e queria saber por que estava ali.

            Pastor Alécio sorriu ao perceber a ansiedade de João. Perguntou como ele estava desde que o avô partira para a glória. João foi vago na resposta e se limitou a dizer que estava vivendo um dia de cada vez. Após mais algumas trocas de amenidades o Pastor entrou no assunto:

            “Tenho certeza de que você sabe o quanto seu avô amava a família. E ele era muito feliz por poder participar do ensino da Palavra na vida dos netos, e desconfio que ele tinha um apreço especial por um certo aprendiz dele cujo nome eu não vou dizer...” – O pastor lançou  um olhar conspiratório e engraçado à João.  – “Ele sempre me contava orgulhoso sobre sua sede de aprender a Bíblia, seu amor por estudá-la e sua prontidão em passar tempo com ele, debruçado sobre as maravilhas da Escritura. Mas ele andava preocupado com você”.

            Nesse momento João sentiu como se pudesse ouvir seu próprio coração batendo. Sentiu um frio na barriga e achou que devia ter escutado errado. O pastor percebeu seu desconforto e decidiu prosseguir logo:

            “Seu avô tinha certeza da veracidade da sua fé e do seu amor por Jesus, mas temia pelo seu entendimento de que a vida com Deus, o nosso sacerdócio deve estar voltado para fora. Sim, para os perdidos. Seu avô tinha plena convicção de que um dia você vai se tornar um excelente orador e pregador da Palavra, e vai abençoar pessoas com o dom de comunicação que ele tinha certeza de que o Senhor te deu. Porém, ele me pediu para te lembrar que Cristo se ofereceu pelos pecadores, aqueles mesmos pecadores a quem Ele pregava a Palavra e apresentava o evangelho do reino. Seu avô sabia que você passaria dias inteiros decifrando um texto até pegar o significado, mas tinha medo de você não ter o mesmo empenho eu seu relacionamento com seus amigos, vizinhos e outras pessoas na sua vida, quanto ao partilhar esse evangelho. – Vendo que João ficava cada vez mais surpreso com tudo aquilo, Pastor Alécio decidiu perguntar: “O que você me diz sobre isso?”.

            João foi tomado de um milhão de pensamentos e memórias. Começou a lembrar das inúmeras vezes em que o avô perguntava sobre algum de seus colegas de sala, ou amigos. Também se lembrou de que às vezes contava ao avô histórias sobre o comportamento de certas pessoas do seu círculo de amizades, em muitos casos, em certo tom de julgamento ou expectativa de aquela pessoa não se comportasse daquela forma. Imediatamente se lembrou da atitude do avô ao dizer com paciência que ‘todo homem nasce morto e que a morte não cai bem a ninguém’. João também se lembrava de ser evasivo quando o avô questionava sobre seus esforços de dividir o que havia aprendido com seus colegas. Percebeu que esse era um assunto constante de suas conversas com o avô, mas que também era algo à que ele nunca tinha dado a atenção devida. E agora o vô Lauro tinha deixado com o pastor a tarefa de mostrar isso a João! Será que ele achou que João ia ouvir melhor o pastor? Como se soubesse o que ele estava pensando, o Pastor Alécio disse:

“Você deve estar se perguntando por que seu avô queria que você conversasse sobre isso comigo, não é mesmo? Se você acha que ele queria que fosse um conversa ‘pastoral’, estilo puxão de orelha, você está muito enganado!”.  – Agora João estava mesmo intrigado – “Seu avô queria que eu tivesse com você a conversa que ele teve comigo quando eu era alguns anos mais velho do que você é hoje. Como você sabe, eu nasci e fui criado aqui na cidade. Encontrei Jesus ainda na infância, ouvindo o evangelho pregado na Escola bíblica. Sempre amei estudar a Bíblia e tentava fazer minha mãe comprar livros e mais livros para mim, mas era difícil para ela que perdeu meu pai ainda jovem e me criava sozinha. Comecei a trabalhar fazendo todo o tipo de pequenos serviços para quase todas as famílias da região para comprar livros de estudo que me ajudavam a conhecer a Bíblia mais a fundo. Seu avô me ajudou muitas vezes completando o valor que faltava quando ele descobria, suspeito que pela minha mãe, o preço dos livros que eu queria. Aos poucos fui sendo convidado para dar uma palavra aqui e ali, em cultos nas casas e encontros de jovens. Quando eu estava para completar dezoito anos, decidi conversar com seu avô, que era sempre disposto a me ensinar e ajudar nos estudos. Disse a ele que me sentia chamado para o ministério pastoral e queria saber o que ele achava disso. Ele ficou muito feliz e disse que via em mim este dom para a pregação do evangelho e que no devido tempo e seguindo tudo o que a igreja estabelecia, ele tinha certeza de que eu seria enviado para o seminário. Mas então ele me disse algo que me deixou pensativo por dias! Ele disse que eu seria um excelente pregador do evangelho, mas que ele gostaria de saber até onde eu estava disposto a ir em favor dos perdidos. Eu nunca tinha parado para pensar naquilo! Seu avô me mostrou que todo o meu zelo pelas Escrituras e meu desejo de ensiná-las não significava nada sem amor. Sim, eu amava Jesus por aquilo que Ele tinha feito por mim, mas e quanto aos demais pecadores? Eu queria dividir com a igreja todas as riquezas da Palavra de Deus, mas era para que eles se tornassem mais ‘entendidos’ de Bíblia ou para que compreendessem a riqueza do evangelho que transforma vivos em mortos, que livra do pecado e da condenação? – O pastor seguiu contando vários detalhes da conversa que teve com vô Lauro no dia em que foi procurá-lo a primeira vez e muitas outras vezes depois daquela. João estava cada vez mais impactado por tudo aquilo. Ele sentia o constrangimento de se perceber cheio de vontade de aprender, porém motivado apenas pelo saber. Ele cria que a Bíblia tinha que mudar a sua vida e confrontar seu pecado, e ele sabia que isso estava acontecendo, mas ver-se responsável pelo evangelho sendo ministrado a outros, especialmente os que não queriam saber dele era só um conceito abstrato em sua mente e em seu coração, agora ele se dava conta disso. Ele fez perguntas ao pastor e ouviu algumas respostas bem interessantes e confrontadoras. No fim da conversa, Pastor Alécio disse:

“Seu avô foi instrumento de Deus na minha vida para me confrontar. Eu estava prestes a me tornar um jovem pregador do evangelho legalista e cheio de conhecimento que poderia se tornar um fim em si mesmo. Seu avô me confrontou com a verdade de que aquele que não prega o evangelho da salvação, não exerce seu sacerdócio apresentando-se a Deus em favor dos perdidos, não compreende de fato a sua própria condição de pecador. Hoje eu tenho a alegria de pastorear uma igreja que está voltada para os perdidos e para a pregação do evangelho, pessoas que lutam para estar comprometidas com o avanço do reino de Deus e pensa nisso em tudo o que faz”.

João orou e chorou com o Pastor Alécio naquela tarde. Eles clamaram juntos pela graça e o perdão de Deus por ter os olhos fechados muitas vezes para a real necessidade daqueles a quem Deus tinha que chamar através da igreja. Pediram mais compromisso e mais doação de si mesmos, e pediram para que suas vidas ministeriais, fosse o que fosse que o Senhor chamasse João para fazer, fossem voltadas para o alcance daqueles que iam herdar a salvação. Quando ele voltou para casa da avó a manhã já tinha terminado. O pastor já havia ligado e avisado a ela que a conversa tinha se demorado, mas que ele estava a caminho. Ela carinhosamente havia deixado o almoço separado para ele. Ele passou o resto da tarde pensando e orando. E pela primeira vez, a saudade do vô Lauro não trouxe nenhuma irritação ou sentimento de injustiça da parte de Deus, era só saudade.

 

 

(7)

 

            João decidiu mudar de ares para o último trecho da sua trilha. Estava cheio de imagens de eventos e pessoas da vida do avô e ao mesmo tempo intrigado com o quanto esses fatos o faziam se questionar sobre seu próprio relacionamento com Deus. Pensou em como era rápido em se cansar quando tentava mostrar a verdade a alguém, o quanto se desculpava pensando que não valia a pena pregar para certas pessoas, porque, ele dizia a si mesmo “elas não querem saber de Deus”. Pensou em como muitas vezes se achava santo e como vinha se comparando aos outros enquanto a base de comparação para a sua vida era a santidade do próprio Deus, o que tornou necessário a morte do justo Jesus por injustos como ele! Decidiu subir o morro que ficava atrás do sítio para estar só. Queria orar e acertar muitas coisas com o Senhor antes de fazer o último trecho da trilha, porque imaginava o que vinha por aí, Jesus como Rei soberano, ou seja, aquele que manda em tudo! 

            Chegou ao seu lugar favorito, de onde via a casa dos avós do alto e o terreno em volta. Viu quando o carro do Tio André, o filho do meio, entrou na estradinha que levava à casa. Lembrou que faltavam pouco mais de uma semana para o Natal e logo a casa estaria cheia. Estava ainda dividido sobre a comemoração do Natal, mas começava a pensar nas risadas gostosas do Tio André e nos biscoitos de chocolate que a Tia Laila, esposa dele, fazia todo Natal. Lembrou-se das conversas boas que tinha com os primos e das caminhadas que fazia com seu Tio Lauro Júnior, o filho mais velho, em que ele contava histórias da sua infância no sítio. Tudo isso era bom demais, mas Vô Lauro não estaria ali, participando disso tudo, como seria isso? Pensou na gratidão devida a Deus e focou seu pensamento na benção que era ter família. Sabia que precisava caminhar nessa direção. 

            Sentou à sombra de uma árvore onde ele e alguns dos primos tinham gravado as iniciais quando eram meninos. Orou algum tempo colocando tudo o que estava no seu coração diante de Deus. Abriu o caderno e colocou ao lado da Bíblia e começou a leitura do último trecho da trilha.

 

3º Ofício de Jesus – Rei – Jesus é o Rei que governa sobre o mundo, protege seu povo e conquista vitória sobre seus inimigos

 

Vô Lauro tinha começado explicando o que é um rei e suas funções:

 

(...) O regente de uma nação ou território, ou seja, aquele que aplica as leis e promove justiça; também aquele que guarda as fronteiras e protege o seu povo de inimigos externos; garantir o bom andamento na vida do reino e provisão para todos;

 

Ele também explicou sobre como o plano de Deus era reinar sobre seu povo, mas como eles tinham o coração endurecido pelo pecado, eles desejaram ser como as outras nações e pediram um rei, porque não confiaram em Deus para reinar sobre eles, guardá-los e protegê-los dos inimigos ao redor. Havia muitas histórias do tempo dos reis que João se lembrava de ter lido e algumas tinham sido temas de trilhas anteriores com o Vô Lauro. Mas o foco que o avô deu nesse ofício de Jesus era mostrar como a promessa feita ao Rei Davi, de que de sua descendência viria um rei que se assentaria para sempre no trono, foi repetida diversas vezes na Bíblia a diferentes profetas por um período de aproximadamente 500 anos, foi cumprida em Jesus, que venceu o pecado e a morte e reina soberano sobre todo o universo. Jesus é descrito em Apocalipse como soberano sobre os reis da terra (Apocalipse 1.5), que julga e guerreia com justiça (Apocalipse 19.11). Também havia no caderno a lembrança de que no nosso exercício desse ofício a ideia era que nós levássemos todos os povos à obediência a esse Rei pela proclamação do Evangelho (Mateus 28.18-20), combatendo os nossos inimigos, a carne, o mundo e o diabo e levando todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2 Coríntios 10.3-5).

            Vô Lauro ressaltou que João deveria pensar sobre o Senhor como Rei Soberano, que tem o controle de tudo e de toda a história nas suas mãos. Ele lembrou que nada foge ao seu plano, e que João se recordasse que era sempre um plano traçado por um Deus Santo, Justo, Perfeito e Bom, mesmo quando para o nosso coração ainda em luta contra o pecado não parecesse assim.

João passou a tarde inteira debaixo daquela árvore. Relendo todo o caderno. Lembrando das conversas com o Tio Pedro e com o Pastor Alécio. Relembrando inúmeras conversas com Vô Lauro, passando em revista quase que sua vida inteira até ali. Orou e chorou e louvou agradecido ao Senhor por tudo o que Ele tinha feito, levando a caminhada dele até aquele dia e aquele lugar especial.

O terceiro ofício terminava com o avô dizendo que ele esperasse até a noite de Natal, e que a trilha terminaria ali. João ficou curioso, mas em paz. Estava aprendendo que toda essa história estava sendo cuidadosamente contada pelo Senhor e Rei da Glória, que estava ali, ao seu lado.

             

 

(9)

 

            A última semana antes do Natal passou voando. A família foi chegando aos poucos, cada um com um calendário diferente de trabalho e demandas. João estava cada vez mais calado. Sentia conforto na presença de todos, amava estar com a sua família no Natal mais do que tudo, mas a dor da saudade do vô ainda batia pesado, apesar de ser de uma forma diferente de algumas semanas atrás. Ainda achava que parecia errado sentar ao redor da mesa sem ele, sorrir na ausência dele, celebrar após perdê-lo. Orava para que Deus o lembrasse o tempo todo da gratidão pela vinda de Jesus, como seu avô havia pedido. Pedia que Deus sondasse seu coração e mostrasse onde ele ainda não estava alinhado com a vontade do Pai, e mudasse a sua vida.

            Na noite da véspera de Natal a mesa foi posta como de costume. Seus avós amavam a mesa grande e todos sentados juntos. Quando os primos e ele eram pequenos, a vó forrava uma toalha grande no chão ao lado da mesa para que os pequenos jantassem juntos, mas no mesmo cômodo que os adultos, pois o avô fazia questão que todos pudessem se ver e conversar durante o jantar.  À medida que foram crescendo, o vô tinha comprado mais mesas de madeira que foi acrescentando à principal e formando um ‘mesão’. Estava chegando o momento que João mais temia. Antes de começar o jantar, o vô Lauro sempre tinha um texto memorizado da Bíblia que ele recitava e trazia uma breve meditação sobre ele. Depois todos oravam juntos e comiam juntos. O que ia acontecer hoje? E como a sua trilha iria se encerrar?

            Quando sua mãe veio chamar a ele e alguns de seus primos que estavam lá fora o coração de João acelerou. Quando entraram na sala onde estava montada a mesa, João imediatamente reparou em algo diferente. Sobre cada prato havia um pequeno envelope. Ele reconheceu na hora a cruz-ponte. Era algum ‘bilhete’ do seu avô para todos. João mordeu o lábio e abaixou a cabeça, fazendo todo esforço para não chorar. Enquanto entravam no cômodo, cada um que ia percebendo essa ‘decoração extra’ na mesa se calava. Quando estavam todos em volta da mesa, o silêncio era total. Vó Naná se dirigiu para a cabeceira, ela ia se sentar ali, onde o Vô Lauro costumava estar. Todos tinham os olhos fixos nela. Ela limpou a garganta e começou:

 

“Sei que todos vocês agora estão cheios de saudades, assim com eu. Sei que talvez alguns de vocês achem estranho e até meio sem graça que estejamos juntos em celebração. Mas seu avô sabia que isso podia acontecer e desejava lembrá-los que o Natal não é sobre ele, nunca foi e nunca será. Estamos agradecidos pela vinda do Messias. Por isso ele me pediu, muitos anos atrás, acreditem, que o primeiro Natal em que um de nós estivesse com o Senhor, o outro lembraria a todos a razão da nossa vida e da nossa real esperança e alegria: o Senhor Jesus. Prometemos um ao outro que assim seria e fizemos esta lista de versículos que agora vamos ler em família. Por favor, Lauro Júnior, você pode começar”.

 

            Tio Lauro, o filho mais velho pegou o envelope e abriu. Retirou dele um pequeno cartão quadrado. Seus olhos brilhavam muito e João sabia que é porque estavam cheios de água. Mas ele ficou firme e leu: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Isaías 9.6”. Ele parou por um segundo e respirou fundo. Virou o cartão e leu por um momento e depois olhou para todos e disse: “Sou grato a Deus por ter enviado Jesus, e por experimentar seus bondosos conselhos, sua força para me manter em seu caminho e a esperança da eternidade que enche o meu coração de paz na sua presença”. Quase todos em volta da mesa responderam “Amém!”. Todos os envelopes tinham textos sobre a vinda do Messias, sobre a promessa de salvação, sobre o caráter de Deus, sobre a esperança do céu. E no verso de todos os cartões estava escrito a mesma coisa: Louve ao Senhor por isso! Um de cada vez, todos ao redor da mesa foram lendo seus versículos. À medida que as breves frases de agradecimento após a leitura se seguiam, todos diziam amém, com cada vez mais convicção e alegria.  A Palavra de Deus proclamada ali ao redor daquela mesa foi enchendo os corações de certeza da sua presença, de consolo e paz em meio à dor e a saudade e trazendo desejo de estar mais perto do Senhor, vivendo para a sua glória. O Vô Lauro queria deixar de ser o foco das atenções e havia conseguido. Muito poucos contiveram as lágrimas enquanto a leitura seguia, mas eram lágrimas permeadas de sorrisos. Quando deram as mãos para orar, Vó Naná tinha a voz firme e orou louvando ao Senhor por toda a sua bondade para com eles. Pediu ao Senhor consolo para a família e unidade no Senhor, para que eles pudessem glorificar a Deus, inclusive no seu luto. Agradeceu a Deus por reinar soberano sobre a história de cada um deles. Ao dizer amém, seus olhos se encontraram com os de João, para quem deu uma piscadinha. Ele entendeu. Sua trilha dos ofícios estava completa. O Vô havia deixado uma mensagem final para João no caderno, que ele ia ler antes de dormir, mas esta fica sendo um segredo entre eles.

            João foi invadido pela mais perfeita paz. Pediu perdão ao Senhor por duvidar da sua bondade e pediu para viver para sua glória, como seu avô havia vivido. Clamou para que o seu avô fosse sempre seu exemplo, mas que o Senhor Jesus fosse sempre o seu alvo ao longo da vida.

            Naquela noite enquanto conversava com os primos e eles trocavam histórias sobre seus momentos com Vô Lauro, João descobriu que todos tinham feito trilhas e caças ao tesouro com o avô algumas vezes. Muitas histórias boas e cheias de significado foram compartilhadas ali. Mas esse casos ficam para uma outra história...

 

 

Alguns anos depois...

 

João entrou no quarto do filho Timóteo achando que ia acordá-lo. Achou o menino sentado na cama, vestido e calçado, balançando as pernas e olhando para a porta. Ficou surpreso.

“Meu filho, você já está pronto! Acordou cedo, foi?”

“Papai, até que enfim! Eu não te acordei porque você me pediu pra esperar aqui. Vamos começar essa trilha dos tesouros da Bíblia, Pai?! Onde nós vamos, hein?”

João sorriu e seu coração se encheu de ternura. Lembrou da bondade de Deus que é de geração em geração.

“Vamos viajar para o Oriente antigo” – disse enquanto se sentava na cama ao lado do menino – “Vamos visitar a tenda de um homem rico chamado Abrão. E vamos aprender sobre a fé. Preparado?”.

O menino pulou da cama cheio de alegria.

“Sim! Vamos logo Pai”.

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