Que canção você cantaria se estivesse a caminho da morte? (4)
Vamos pensar hoje sobre o Salmo 116. Será que foi o salmo que Jesus cantou no cenáculo com os apóstolos?
Este sem dúvida é um cântico escrito por
alguém cujo coração estava cheio de gratidão. O Salmista nos mostra claramente
que passou por “poucas e boas”, mas o Senhor o livrou. Por isso, ele decide
cantar esta canção. O Salmista começa demonstrando o seu amor pelo Senhor
(verso 1) que está firmado no próprio amor de Deus por ele (verso 2). Ele se
sentia totalmente perdido e sem saída (verso 3), mas recorreu ao Senhor (verso
4).
Nos versos 5 à 8 ele mostra que confiou no
Senhor e no seu caráter bondoso e cheio de misericórdia, que condescende com o
aflito. Ele mostra o quanto o seu coração está cheio de paz e sossego, voltando
a sentir-se firme. Tamanho é o seu estado de reconhecimento disso, que ele
deseja andar pra todo lado na presença do Senhor (verso 9). Ele crê tanto na
graça do Senhor que declara que estava em aflição, mas mesmo assim cria, por
isso clamou a Deus (verso 10), mesmo em face das mentiras de outros (verso 11),
mentiras estas que podem ou não ter feito parte da luta que o salmista viveu.
Em seu coração cheio de ‘aleluias’, ele se questiona sobre o que ele pode dar
ao Senhor diante de tamanhos benefícios (verso 12).
Uma resposta possível que ele apresenta (verso
13) é que ele vai tomar o cálice da salvação e cumprir os seus votos diante de
todos. Isso pode fazer uma referência a uma oferta de libação (Números 15.10).
Estas eram ofertas líquidas que ao invés de serem bebidas, eram derramadas
diante do altar, um sacrifício, a renúncia de algo em honra ao Senhor. Mas este
cálice descrito aqui também pode ser uma metáfora que aponta para um contraste
com o cálice da ira de Deus, que era uma figura usada também em outras canções
dos (Salmos 75.8, por exemplo). Seja qual for a intenção do salmista ao
mencionar este cálice, a última ceia de Jesus com os discípulos seria um
momento apropriado para cantar sobre isso. O Senhor Jesus estava prestes a
tomar o cálice da ira de Deus por causa do pecado em nosso lugar, pagando a
nossa dívida, vencendo o poder da morte e do pecado sobre nós, derramando a sua
vida como a oferta perfeita, nos oferecendo assim o maravilhoso cálice da
salvação. E hoje, em adoração, somos chamados a oferecer nossa vida a Ele em
gratidão, como sacrifício vivo, santo e agradável (Romanos 12.1-2), procurando
viver nossa vida em contínuo abandono do pecado e crescimento da nossa
santificação diante dele, sendo suas testemunhas diante de todos (versos 14 e
18).
É nesta perspectiva que o salmista afirma que
aos olhos do Senhor a morte dos seus santos é preciosa (verso 15). Tanto nossa
morte quanto a nossa vida são importantes para o Senhor, que tem todo domínio sobre
a nossa história e sabe que esta aparente derrota que a morte parece ser não
significa nada diante da vitória que ele conquistou na cruz sobre ela. Ao
morrermos aqui, estamos diante dele em sua presença de imediato, e quando Ele
voltar para julgar vivos e mortos, estaremos diante dele novamente em nossos
corpos físicos restaurados, para nos deleitar na sua presença por toda a
eternidade! Que tremenda paz e esperança sem comparação!
O Salmista então conclui a sua explosão de
gratidão a Deus reconhecendo-se como servo do Senhor, liberto por ele (verso
16), cheio de gratidão e confiança depositadas somente no Senhor (verso 17),
vivendo para demonstrar o seu poder amor e graça publicamente (versos 18 e 19).
Caberia tamanha festa no coração dos
discípulos naquela noite? Diante de tudo o que havia acontecido na semana que
antecedeu a prisão de Jesus e tudo o que Ele mesmo havia dito a seu respeito, o
que aqueles homens esperavam? Eles tinham dúvidas, temiam, compreendiam que
estavam diante da salvação encarnada, da vitória sobre o mal, sobre o pecado, e
por fim sobre a própria morte?
E nós, como estamos durante a hora mais
escura, quando nossa vida parece estar por um fio ou quando somos injustiçados
por outros? Será que o nosso coração consegue reconhecer a grandeza da bondade
de Deus? Será que ao olharmos para a nossa história vemos, como este salmista
viu, os buracos profundos em que nós caímos e as maneiras tremendas pelas quais
o Senhor nos tirou deles? Será que reconhecemos que o lamaçal mais profundo de
todos era a nossa condição de pecadores, inimigos de Deus, mortos em nossos
pecados, lamaçal este do qual o Senhor nos tirou com o preço de sua vida?
Que canções o nosso coração entoa? Será que
há gratidão nelas? Será que há exultação no fato de que podemos confiar no
Senhor e de que nossa vida e nossa morte estão em suas mãos e nada foge ao seu
cuidado e nem escapa do seu plano perfeito? Será que estamos constrangidos
pensando em como é possível, sendo quem somos, oferecer algo ao Senhor por
todos os seus benefícios?
Peça ao Senhor, como eu peço hoje que sonde a
canção do seu coração, que Ele te ajude a enxergar com clareza a letra dela e
se colocar diante dele em arrependimento e quebrantamento, para ser moldado
pelo seu Espírito e cheio da sua presença, para a glória do nome dele!
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